Segunda-feira, Novembro 19, 2007

soneto descompassado

disse dos cabelos negros a cegueira do som improvável
- difícil carregar o vento nas hélices dos lábios...
não julgue minha sede que matou onde nasceu a fome,
não maldiga o peito em sortimento, ainda que o ignore -

digo, esses negros cabelos ainda encravam sob as unhas
e espetam cada nervo desta minha voz aguda:
- em vibrato - cada órgão, como se ressuscitado,
orquestra para serenar aquele músculo descompassado.

a hesitante do tempo esfacela um doce vindouro,
pois tudo o que destila de teus olhos, arde,
nos cabelos e na língua que tripudia uma verdade.

mea-culpa te engendrar no claustro desta fábula,
mas terno é o que o acaso brinda - e desata –
nas veias que, agora, gangrenam sob a mesma mácula.

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Segunda-feira, Outubro 29, 2007

ballet pop contemporâneo

sobre o campo, verdes falanges,
um ballet pop salta à tela dos vivos
corpos, no silêncio dos ouvidos que
ressoam dissonantes

a bola, um jogo, e o sofá
acolhe as almas que se assistem
num ballet pop contemporâneo

do afeto, feito inédito, um
modular de gestos plácidos,
na visão de corpos quietos

um vazio desmodulado,
carregado de ternura em brasa:
o silêncio do estar, simplesmente,
sob o encanto da hora que ali passa.

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Segunda-feira, Outubro 08, 2007

a parrisse

encontrei por acaso
a mala que esqueceu
quando foi a paris

nela
meus olhos miúdos sangraram
na festa de um beaujolais

nouveau

as roupas gemiam como o acordeão
cansado
que embebedava o quartier

latin

e o perfume
cheirava às putas do pigalle
tão suaves como só

a parrisse

peguei pra mim
sua bagagem e meu tropeço
que perdeu viço:

você voltou

mas o vício que fica
entedia
no recomeço

da minha festa de amor

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

Dessoneto da onipotência

quando da hora de se deitar na chaise
longue que a aguardava sob a origem do
mundo, dele os olhos se curvaram ante
a imagem dos crus joelhos carnudos

a experiência do novo instante inquietava as
mãos que se repetiam, entediadas e taquicárdicas,
rumo a qualquer objeto do qual jamais se deixara

amparar; pediu-lhe um cigarro e frustrou
seus pulmões com o suor das mãos abafadas
enquanto ela falava, sem vê-lo, para os quadros da sala

irritado, resignou-se ao tédio inventado e
queimou a língua, os lábios e a visão da
doce traidora, onde queria habitar em
fetiche, mas por ela despertou enfeitiçado.

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A terra das oportunidades

“São Paulo é a terra das oportunidades”. É o que mais tenho ouvido falar desde que cheguei a esta metrópole que me pariu em 1984. Não conheço Nova Iorque, Londres, Paris ou qualquer outro lugar “cosmopolita” que não seja Santiago del Chile, Buenos Aires ou Assunción, capital del Paraguay, mas reconheço que São Paulo é, de fato, uma cidade que abre portas em todas as direções, basta dar um reset no olhar. A quantidade de bons programas para se fazer de graça em São Paulo é algo que pontua as abissais diferenças entre as duas maiores cidades do Brasil. Quatro anos no Rio me formaram, mas também contribuíram para que eu me tornasse menos doce e suportável nesse sentido. Enquanto o Rio é a província das elites por excelência, São Paulo é a terra da democracia e das oportunidades. Refiro-me, aqui, a um plano mais sensível. Poderia numerar inúmeros exemplos que se estenderiam em um sem-número de posts, mas enquanto os cariocas se deparam com a leitura de crônicas de gosto duvidoso de Alberto Goldin no jornal O Globo, eu me masturbo todas as quintas-feiras com a coluna do Contardo Calligaris na Folha de São Paulo – que ele não saiba disso, rs...

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Segunda-feira, Agosto 06, 2007

Dessemelhança fundamental

Paisagem

Havia beleza lá fora, onde mar e céu aninhavam a brisa
Que arranhava o corpo a reverberar pela orla

Agora

Há virtude lá fora, onde janelas e carros refletem a vida
Que desarranja o corpo a vagar por sua alma

Fundamental dessemelhança

Poder olha pra fora
E ter de olhar para a própria herança

Quinta-feira, Março 22, 2007

"- Fui fazer uma caminhada e volto já"

para Cecilia

Uma fonte não seca porque lhe tiram a seiva.
O destino do manancial amplia
não despende
- apenas explende.

Os dias não vigoram da fonte.
Há o mundo do claro e do escuro.
Em todo ciclo.
Há o mundo que brota.

A.

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

aquarela

não confie
na cor que se furta
quando nada